Coroinhas no
tempo do Latim na Liturgia – História real:
Eu tinha uns cinco
anos quando uma tarde minha mãe colheu uma braçada de flores de nosso “quintal”
– que em Salto Grande, na maior parte das casas, era uma mistura de horta,
jardim e pomar, além de local para descarregar a lenha, que naquele tempo se
comprava em carradas. As flores eram para enfeitar o altar da igreja.
Fui com a mãe levá-las à sacristia, onde uma simpática
“Schwester” nos recebeu e agradeceu pelo presente. Naquele tempo não passava
pela cabeça de ninguém chamar de “irmã” as religiosas Franciscanas de São José
que cuidavam do Hospital Bom Jesus e da arrumação e enfeites da igreja; era
“Schwester” mesmo, em alemão. Aliás, pronuncia-se “Schvésta”.
A Irmã, depois de conversar um pouco com minha mãe
perguntou:
“- O Álbio já é sacristão?”
Mal sabia ela que este era um dos meus sonhos mais secretos:
ser “coroinha”, palavra que só vim a conhecer muito mais tarde. Todo guri
católico, naqueles longínquos tempos, passava pela sua fase de “sacristão”, que
em geral começava pelos 7 anos.
Ante a resposta negativa ela continuou: “- Ah! Mas ele já
pode ser sacristão. Até pode começar na novena de hoje à noite.”
Escusado dizer que voltei para casa pisando em nuvens, de
tanta felicidade. E na “novena” das 7 daquela noite, lá estava eu de batina
vermelha, sobrepeliz branca e ainda uma espécie de pelerine ou capinha vermelha
ao redor do pescoço. Um luxo!
Claro que no início minhas funções eram muito rudimentares.
Limitava-me a fazer o que os companheiros de “ministério” faziam e que eu já
conhecia de cor, de tanto vê-los nas missas, novenas e procissões. Depois,
pouco a pouco, fui subindo na carreira. Ajudava nas celebrações, respondendo em
latim às orações do celebrante, levando-lhe o vinho, a água e o “manustério”,
tocava com vigor e alegria a campainha nos momentos prescritos, segurava a
bainha da casula do sacerdote durante a Consagração, carregava a naveta como
incenso e, suprema glória, cuidava do turíbulo balançando-o para manter as brasas
acesas, puxando a correntinha que levanta que levantava a tampa, para que o
sacerdote pusesse o incenso sobre as brasas e, na hora da bênção do Santíssimo,
incensava-o por três vezes como os padres faziam nas missas solenes.
Claro que naquela época a maior parte das palavras que usei
acima nos eram completamente desconhecidas. Só vim a conhecer a palavra
pelerine já adulto. Manustério era a toalhinha para o padre enxugar os dedos
após o Lavabo, mas acho que naveta já era naveta e tinha uma colherinha para
usar o incenso.
Novena era qualquer celebração que acontecesse à noite, não
tendo nada a ver com o prazo de nove dias. No mês de maio eram em honra a Nossa
Senhora, e em junho em honra ao Sagrado Coração de Jesus, sempre com a
recitação de uma ladainha, quase sempre cantada, muitos cantos e, ao final, a
bênção do Santíssimo Sacramento.
Aliás, todo domingo à tarde, pelas 5 horas, havia também
“bênçãos” do Santíssimo. Missas, com excessão da “do galo” à meia-noite do dia
24 de dezembro, só na parte da manhã.
De latim sabíamos o óbvio, isto é, aquelas palavras que,
pelo som, assemelhavam-se ao português. Mas penso que nunca conseguimos rezar
com as terminações latinas exatas um único “confiteor”. Mas, convenhamos: seria
exigir muito de uma turma de guris do mato, recém alfabetizados.
Passei por algumas aventuras na minha carreira
“eclesiástica”. Naquele tempo uma das atribuições do ajudante era levar o
Missal de um lado para o outro do altar. Pois um belo dia – eu ainda pequeno-
ao descer pisei na minha batina, tropecei e lá fui eu de roldão degraus abaixo,
com o missal voando longe pelo chão. Um vexame!
De outra feita, ajoelhado mais abaixo perto da mesa da
comunhão, balançava eu o meu turíbulo enquanto ouvia uma bela ladainha cantada,
na noite serena que apenas começava. Tudo conspirava para o desastre: o cansaço
das brincadeiras do dia, a música suave, o cheirinho do incenso... e lá fui eu
pegando no sono e balançando o turíbulo cada vez mais baixo, até que ele deu
com os fundos no degrau e, junto com aquele barulhão de ferragens amassadas que
num instante me acordou, espalhou brasas por uns três metros de distância sobre
o tapete. Foi um “Deus nos acuda”! Todo mundo tentando pegar as brasas ou pelo
menos tirá-las de cima do tapete...
Durante a semana os coroinhas eram raros, pois as missas
eram rezadas às cinco da manhã, alta madrugada nos invernos frios de
Ituporanga. Mas era a hora em que as pessoas podiam participar, pois logo
depois começava a faina diária para homens e mulheres.
Muitas madrugadas fui acordado pela minha mãe às 4 e meia e
ia com ela, tremendo de frio, ajudar a missa das 5.
Em compensação aos sábados havia coroinhas “saindo pelo
ladrão”. Todos os guris queriam ajudar às missas no horário mais “civilizado”
das 7 horas, quando invariavelmente celebravam-se os casamentos, às vezes três
ou quatro ao final dos quais, as “testemunhas” davam aos coroinhas uma moedinha
pelo trabalho”, em geral uma de 500 réis ou, quando se tinha sorte, uma de “dez
tostões” – um mil réis.
Pois fui coroinha dos 5 aos 14 anos, em Ituporanga e depois
em Blumenau, onde fui cursar o Ginasial no Colégio Santo Antônio.
Em ambas as cidades convivi com muitos sacerdotes
franciscanos, a maioria vindos da Alemanha para evangelizar estas nossas terras
brasileiras.
Grandes homens que marcaram minha vida, pelos seus
ensinamentos e também por sua santidade. Não conheci frei Gabriel Zimmer, o
primeiro pároco de Ituporanga (1929/1936) que me batizou em 1934. Foi ele quem
construiu a primeira igreja, aquela da minha infância, ao lado do Grupo Escolar
Santo Antônio, também construído por ele.
Em 1945 estava uma tarde brincando em frente à alfaiataria
de meu pai, quando passou o ônibus que vinha de Rio do Sul, e que chegava
sempre perto das 5 da tarde. Como sempre, meu pai veio até a calçada para ver
quem desembarcava, pois o ônibus sempre passava em frente ao Hotel do “seu”
Jacó Sens, pouco adiante de nossa casa.
Numa pacata vila do interior, sem muitas novidades, a
chegada do ônibus servia para quebrar um pouco a rotina do dia. Vimos quando,
entre outros passageiros, desembarcou também um sacerdote, com guarda-pó
amarelo – “uniforme” quase obrigatório naqueles tempos de estradas poeirentas –
uma maleta numa das mãos e um guarda-chuvas fechado na outra. “- Álbio, vai lá
ajudar aquele padre!” – me disse meu pai e lá fui eu apresentar-me ao Frei
Arthur. Fui a pessoa que o recebeu em Ituporanga e carregou sua mala até a casa
paroquial. Frei Arthur Kleba, franciscano alemão que durante anos foi Pároco da
minha cidade e que marcou toda uma geração de ituporanguenses. Um homem bom, de
voz forte com um sotaque carregado, quase sempre um sorriso no rosto franco.
E vieram outros, párocos e auxiliares. De todos guardo uma
recordação amiga e saudosa. Frei Meinrado, frei Raul, frei Fortunato, que
abençoou meu casamento com a Mafalda, frei Gaspar, que nos deu Primeira
Eucaristia, frei Achiles, frei Jerônimo, frei Beno, frei Cassiano, frei
Deodoro, frei Manfredo...
Lembrando dos sacerdotes quero falar mais um pouco do nosso
Grupo Escolar Santo Antônio, construído por frei Gabriel. Era uma Escola
moderna até para os padrões de hoje, com três salas de aula, separadas umas das
outras por paredes articuladas que podiam ser abertas. Duas delas formavam uma
grande sala que podia ser usada como teatro e a última, construída em nível
mais alto, mais ou menos 1,20 m, servia de palco para as apresentações. Com
pano de boca que abria para os dois lados e até bastidores, para esconder
atores e cenários do público.
Eram salas amplas, claras e arejadas, com grandes mapas de
todos os continentes pendurados pelas paredes, além de outras grandes gravuras
mostrando os insetos, as aves, os peixes e os mamíferos do Brasil.
Até onde me lembro, nunca qualquer desses mapas ou gravuras
teve sequer um arranhão ou um risco de tinta feito por um aluno. E olhem que
naquele tempo tinta era tinta mesmo, guardada em pequenos tinteiros que todos
os alunos traziam para a aula em suas sacolas ou mochilas e levavam de volta
para os deveres de casa.
Naquela Escola, quando transformada em teatro, quantas
comédias foram encenadas, divertindo a plateia e quantos dramas religiosos
levaram a plateia às lágrimas quando alguma santa cristã era decapitada por não
abjurar sua fé diante dos pérfidos imperadores romanos.
Lá fui expectador e também ator, muitas vezes. Especialmente
em Autos de Natal: fui de tudo um pouco: pastor, anjo, soldado e profeta. Mas
nunca me escolheram para São José, eu que já naquela época morria de amores
pela garota que quase sempre fazia o papel de Nossa Senhora. Era a Mafalda,
filha de dona Lolita e de seu Antonio Pereira, linda menina de tranças muito
prendada, que desde cedo estudava no Colégio Santa Rosa de Lima, de Lages.
Havíamos feito juntos um ano de “doutrina” e depois a Primeira Comunhão, em 8
de dezembro de 1942. Adolescentes, participávamos de praticamente todas as
apresentações teatrais.
Pois o ponto máximo de minha carreira de ator foi o papel de
Herodes, o malvado rei que queria acabar com a vida do pequeno Jesus de Nazaré.
Podem imaginar o “cartaz” que este sujeito tinha com a mãe do Menino. Ainda bem
que a “atriz” sabia diferenciar ficção de realidade e acabou casando comigo.
Happy End! Bons tempos aqueles!



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