sábado, 26 de maio de 2018

Coroinha no tempo da Liturgia em Latim


Coroinhas no tempo do Latim na Liturgia – História real:
 Eu tinha uns cinco anos quando uma tarde minha mãe colheu uma braçada de flores de nosso “quintal” – que em Salto Grande, na maior parte das casas, era uma mistura de horta, jardim e pomar, além de local para descarregar a lenha, que naquele tempo se comprava em carradas. As flores eram para enfeitar o altar da igreja.
Fui com a mãe levá-las à sacristia, onde uma simpática “Schwester” nos recebeu e agradeceu pelo presente. Naquele tempo não passava pela cabeça de ninguém chamar de “irmã” as religiosas Franciscanas de São José que cuidavam do Hospital Bom Jesus e da arrumação e enfeites da igreja; era “Schwester” mesmo, em alemão. Aliás, pronuncia-se “Schvésta”.
A Irmã, depois de conversar um pouco com minha mãe perguntou:
“- O Álbio já é sacristão?”
Mal sabia ela que este era um dos meus sonhos mais secretos: ser “coroinha”, palavra que só vim a conhecer muito mais tarde. Todo guri católico, naqueles longínquos tempos, passava pela sua fase de “sacristão”, que em geral começava pelos 7 anos.
Ante a resposta negativa ela continuou: “- Ah! Mas ele já pode ser sacristão. Até pode começar na novena de hoje à noite.”
Escusado dizer que voltei para casa pisando em nuvens, de tanta felicidade. E na “novena” das 7 daquela noite, lá estava eu de batina vermelha, sobrepeliz branca e ainda uma espécie de pelerine ou capinha vermelha ao redor do pescoço. Um luxo!
Claro que no início minhas funções eram muito rudimentares. Limitava-me a fazer o que os companheiros de “ministério” faziam e que eu já conhecia de cor, de tanto vê-los nas missas, novenas e procissões. Depois, pouco a pouco, fui subindo na carreira. Ajudava nas celebrações, respondendo em latim às orações do celebrante, levando-lhe o vinho, a água e o “manustério”, tocava com vigor e alegria a campainha nos momentos prescritos, segurava a bainha da casula do sacerdote durante a Consagração, carregava a naveta como incenso e, suprema glória, cuidava do turíbulo balançando-o para manter as brasas acesas, puxando a correntinha que levanta que levantava a tampa, para que o sacerdote pusesse o incenso sobre as brasas e, na hora da bênção do Santíssimo, incensava-o por três vezes como os padres faziam nas missas solenes.
Claro que naquela época a maior parte das palavras que usei acima nos eram completamente desconhecidas. Só vim a conhecer a palavra pelerine já adulto. Manustério era a toalhinha para o padre enxugar os dedos após o Lavabo, mas acho que naveta já era naveta e tinha uma colherinha para usar o incenso.
Novena era qualquer celebração que acontecesse à noite, não tendo nada a ver com o prazo de nove dias. No mês de maio eram em honra a Nossa Senhora, e em junho em honra ao Sagrado Coração de Jesus, sempre com a recitação de uma ladainha, quase sempre cantada, muitos cantos e, ao final, a bênção do Santíssimo Sacramento.
Aliás, todo domingo à tarde, pelas 5 horas, havia também “bênçãos” do Santíssimo. Missas, com excessão da “do galo” à meia-noite do dia 24 de dezembro, só na parte da manhã.
De latim sabíamos o óbvio, isto é, aquelas palavras que, pelo som, assemelhavam-se ao português. Mas penso que nunca conseguimos rezar com as terminações latinas exatas um único “confiteor”. Mas, convenhamos: seria exigir muito de uma turma de guris do mato, recém alfabetizados.
Passei por algumas aventuras na minha carreira “eclesiástica”. Naquele tempo uma das atribuições do ajudante era levar o Missal de um lado para o outro do altar. Pois um belo dia – eu ainda pequeno- ao descer pisei na minha batina, tropecei e lá fui eu de roldão degraus abaixo, com o missal voando longe pelo chão. Um vexame!
De outra feita, ajoelhado mais abaixo perto da mesa da comunhão, balançava eu o meu turíbulo enquanto ouvia uma bela ladainha cantada, na noite serena que apenas começava. Tudo conspirava para o desastre: o cansaço das brincadeiras do dia, a música suave, o cheirinho do incenso... e lá fui eu pegando no sono e balançando o turíbulo cada vez mais baixo, até que ele deu com os fundos no degrau e, junto com aquele barulhão de ferragens amassadas que num instante me acordou, espalhou brasas por uns três metros de distância sobre o tapete. Foi um “Deus nos acuda”! Todo mundo tentando pegar as brasas ou pelo menos tirá-las de cima do tapete...
Durante a semana os coroinhas eram raros, pois as missas eram rezadas às cinco da manhã, alta madrugada nos invernos frios de Ituporanga. Mas era a hora em que as pessoas podiam participar, pois logo depois começava a faina diária para homens e mulheres.
Muitas madrugadas fui acordado pela minha mãe às 4 e meia e ia com ela, tremendo de frio, ajudar a missa das 5.
Em compensação aos sábados havia coroinhas “saindo pelo ladrão”. Todos os guris queriam ajudar às missas no horário mais “civilizado” das 7 horas, quando invariavelmente celebravam-se os casamentos, às vezes três ou quatro ao final dos quais, as “testemunhas” davam aos coroinhas uma moedinha pelo trabalho”, em geral uma de 500 réis ou, quando se tinha sorte, uma de “dez tostões” – um mil réis.
Pois fui coroinha dos 5 aos 14 anos, em Ituporanga e depois em Blumenau, onde fui cursar o Ginasial no Colégio Santo Antônio.
Em ambas as cidades convivi com muitos sacerdotes franciscanos, a maioria vindos da Alemanha para evangelizar estas nossas terras brasileiras.
Grandes homens que marcaram minha vida, pelos seus ensinamentos e também por sua santidade. Não conheci frei Gabriel Zimmer, o primeiro pároco de Ituporanga (1929/1936) que me batizou em 1934. Foi ele quem construiu a primeira igreja, aquela da minha infância, ao lado do Grupo Escolar Santo Antônio, também construído por ele.
Em 1945 estava uma tarde brincando em frente à alfaiataria de meu pai, quando passou o ônibus que vinha de Rio do Sul, e que chegava sempre perto das 5 da tarde. Como sempre, meu pai veio até a calçada para ver quem desembarcava, pois o ônibus sempre passava em frente ao Hotel do “seu” Jacó Sens, pouco adiante de nossa casa.
Numa pacata vila do interior, sem muitas novidades, a chegada do ônibus servia para quebrar um pouco a rotina do dia. Vimos quando, entre outros passageiros, desembarcou também um sacerdote, com guarda-pó amarelo – “uniforme” quase obrigatório naqueles tempos de estradas poeirentas – uma maleta numa das mãos e um guarda-chuvas fechado na outra. “- Álbio, vai lá ajudar aquele padre!” – me disse meu pai e lá fui eu apresentar-me ao Frei Arthur. Fui a pessoa que o recebeu em Ituporanga e carregou sua mala até a casa paroquial. Frei Arthur Kleba, franciscano alemão que durante anos foi Pároco da minha cidade e que marcou toda uma geração de ituporanguenses. Um homem bom, de voz forte com um sotaque carregado, quase sempre um sorriso no rosto franco.
E vieram outros, párocos e auxiliares. De todos guardo uma recordação amiga e saudosa. Frei Meinrado, frei Raul, frei Fortunato, que abençoou meu casamento com a Mafalda, frei Gaspar, que nos deu Primeira Eucaristia, frei Achiles, frei Jerônimo, frei Beno, frei Cassiano, frei Deodoro, frei Manfredo...
Lembrando dos sacerdotes quero falar mais um pouco do nosso Grupo Escolar Santo Antônio, construído por frei Gabriel. Era uma Escola moderna até para os padrões de hoje, com três salas de aula, separadas umas das outras por paredes articuladas que podiam ser abertas. Duas delas formavam uma grande sala que podia ser usada como teatro e a última, construída em nível mais alto, mais ou menos 1,20 m, servia de palco para as apresentações. Com pano de boca que abria para os dois lados e até bastidores, para esconder atores e cenários do público.
Eram salas amplas, claras e arejadas, com grandes mapas de todos os continentes pendurados pelas paredes, além de outras grandes gravuras mostrando os insetos, as aves, os peixes e os mamíferos do Brasil.
Até onde me lembro, nunca qualquer desses mapas ou gravuras teve sequer um arranhão ou um risco de tinta feito por um aluno. E olhem que naquele tempo tinta era tinta mesmo, guardada em pequenos tinteiros que todos os alunos traziam para a aula em suas sacolas ou mochilas e levavam de volta para os deveres de casa.
Naquela Escola, quando transformada em teatro, quantas comédias foram encenadas, divertindo a plateia e quantos dramas religiosos levaram a plateia às lágrimas quando alguma santa cristã era decapitada por não abjurar sua fé diante dos pérfidos imperadores romanos.
Lá fui expectador e também ator, muitas vezes. Especialmente em Autos de Natal: fui de tudo um pouco: pastor, anjo, soldado e profeta. Mas nunca me escolheram para São José, eu que já naquela época morria de amores pela garota que quase sempre fazia o papel de Nossa Senhora. Era a Mafalda, filha de dona Lolita e de seu Antonio Pereira, linda menina de tranças muito prendada, que desde cedo estudava no Colégio Santa Rosa de Lima, de Lages. Havíamos feito juntos um ano de “doutrina” e depois a Primeira Comunhão, em 8 de dezembro de 1942. Adolescentes, participávamos de praticamente todas as apresentações teatrais.
Pois o ponto máximo de minha carreira de ator foi o papel de Herodes, o malvado rei que queria acabar com a vida do pequeno Jesus de Nazaré. Podem imaginar o “cartaz” que este sujeito tinha com a mãe do Menino. Ainda bem que a “atriz” sabia diferenciar ficção de realidade e acabou casando comigo. Happy End! Bons tempos aqueles!

Um comentário:

  1. Importante: Esqueci de colocar o nome do autor, o Coroinha atualmente com mais de 80 anos, Albio Boing, esposo da querida irmã Mafalda Pereira Boing.

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